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12.8.08

instruções para dar corda no relógio.

lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. segure o relógio com uma mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o suavemente. agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.
que mais quer, que mais quer? amarre-o depressa a seu pulso, deixe-o bater em liberdade, imite-o anelante. o medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. e lá no fundo está a morte se não corremos, e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância.

preâmbulo às instruções para dar corda no relógio.

pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra pedras que você atará ao pulso e levará a passear. dão a você — eles não sabem, o terrí­vel é que eles não sabem — um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrinas das joalherias, na notí­cia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perde-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.


cortàzar, histórias de cronópios e de famas.

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