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27.11.10

A faixa de Gaza é aqui

por Bárbara Gancia

Ouço muito dizer que o Rio de Janeiro está cansado de viver em guerra civil. Mas será que está mesmo? Afinal, de que Rio de Janeiro estamos falando?
Difícil dizer até que ponto uma cidade tão profundamente cindida possa ter personalidade integrada e uma única voz.
Mas algo me diz que os que provocam a violência também devem ser cariocas, não? Ou será que os morros foram tomados por incas venezianos enfurecidos?

De novo, o prefeito Eduardo Paes (PMDB) quis fazer bonito e, desta vez bebendo da fonte de Winston Churchill ("We shall never surrender"), pediu que o carioca não se acovardasse. Ora, não vi covardia na ação dos traficantes igualmente cariocas, não.
Ao contrário, a tática de semear o terror queimando carros e ônibus pela cidade, alguns até com gente dentro, parece ser estratégia de guerrilha urbana ultrasofisticada. E, insisto, executada por cariocas.
O que quero dizer é que em algum momento nós teremos de reconhecer a existência destas gerações perdidas para o tráfico e para a deseducação. É isso ou a criação de um conflito duradouro, uma espécie de Palestina na Guanabara que vai se alastrando pelo país.
O assalariado enganou-se quando pensou que pagar imposto por três já estava de bom tamanho, que sua parte estava feita.

José Carlos dos Reis Encina, o traficante Escadinha, que para os parâmetros de hoje seria um mahatma Gandhi, já nos havia advertido sobre a brutalidade do que estava por vir. Agora eles estão aqui, são a segunda e a terceira gerações de excluídos que vivem do lucro das drogas. E eles têm uma raiva brutal de você e de mim.
Moleque começou a fazer avião aos 10 anos, viveu sob o código de honra do tráfico e viu tudo na vida ser resolvido aos tiros. Que modelo de sucesso esperamos que ele siga, o do Bill Gates e do Eike Batista?
Você, meu caro leitor, já se deu ao trabalho de tentar enxergar esse garoto da periferia mais de perto? Ele está por toda parte, muitas vezes tem emprego fixo e convive ao seu lado. Mas, se pudesse, enchia você de pipoco sem sentir remorso.
É essa a estética que predomina, a gente só não vê porque não tem o olho treinado. Está no baile de fim de semana, no jeito de se relacionar com os amigos, na maneira de lidar com a autoridade, na forma de tratar a mulher.

A hostilidade é a base de tudo, levar vantagem, passar a perna e garantir o seu. Mais ou menos o que acontece hoje com a garotada da classe média, só que com uma dose bem maior de raiva. E com os limites impostos pelo tráfico.
Sujeito nasce em um cômodo com mãe trabalhando fora e uma pá de irmãos. Um vira camelô, o outro policial, o outro travesti e alguém descamba para o tráfico. Há muita droga rolando debaixo do nariz e quase nenhum afeto.
Admira que o camarada queira matar e pilhar quem o vê como inimigo e só sabe oferecer indignação?

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