Páginas

24.11.08

o pai, a mãe, o filho, a filha

o pai se pendeu
em lugar da pêndula.
a mãe está muda.
a filha está muda.
o filho está mudo.
todos os três seguem
o tiquetaque do pai.
a mãe é de ar.
o pai voa através da mãe.
o filho é um dos corvos
da praça de São Marcos de Veneza.
a filha é um pombo-correio.
a filha é doce.
o pai come a filha.
a mãe corta o pai em dois
come-lhe uma metade
e oferece a outra ao filho.
o filho é uma vírgula.
a filha não tem cauda nem cabeça.
a mãe é um ovo galado.
da boca do pai
pendem caudas de palavras.
a filha é uma pá quebrada.
o pai é pois forçado
a lavrar a terra
com sua longa língua.
a mãe segue o exemplo de Cristóvão Colombo.
anda sobre suas mãos nuas
e agarra com seus pés nus
um ovo de ar após o outro.
a filha remenda o desgaste de um eco.
a mãe é um céu cinza
em que se arrasta embaixo bem embaixo
um pai de papel mata-borrão
coberto de manchas de tinta.
o filho é uma núvem.
quando chora chove.
a filha é uma lágrima imberbe.

poema de hans arp retirado do blog surrealismo do acaso que retirou de
'os arcanos da poesia surrealista - seleção de josé pierre e jean schuster com tradução de antônio houaiss. editora brasiliense.


linkado ->

Nenhum comentário: